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Mãos Caíçaras
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    O bordado como expressão de arte, cultura e tradição.

     

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    A artista têxtil Regina Bartilotti, fundadora do grupo Mãos Caiçaras, é a expressão de uma das mais recentes transformações artísticas, culturais e sociais de Paraty.

    Baiana de Salvador, ela chegou à cidade há pouco mais de uma década. Logo de cara, incorporou as tradições e os hábitos locais como se fossem seus desde sempre. Mais do que isso, tem ajudado a desenvolver uma das atividades mais importantes para a economia de Paraty: os bordados. Hoje, ela borda as cenas e tradições que ajudam a manter viva a história da cidade.

    Sua trajetória tem inspirado muita gente, e sua arte hoje está presente em peças da nossa coleção JOY-IV. Em oito delas - camisões e vestidos -, estão lá as famosas mãos caiçaras de Paraty.
     

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    De onde vem sua paixão pelo bordado?

    Isso eu trouxe da infância. Vivi desde sempre o mundo artesanal. Quando menina, eu convivia muito com a parte da família que morava em Tanquinho, cidadezinha de menos de oito mil habitantes, a meia hora de Feira de Santana. Íamos sempre para lá. Minha mãe e minha madrinha eram bordadeiras de mão cheia. Desde novinha, sempre tive aptidão para o desenho, e aprendi a bordar com elas.

     

    Como tudo começou?

    Quando cheguei, trouxe meu Ateliê Harmonia das Cores, para dar aulas, e comecei a frequentar os espaços de lazer. Logo fui contratada como professora pelo Instituto Colibri, que queria descobrir quem eram e onde estavam as bordadeiras da cidade. Procurei conhecer as histórias de Paraty, e me encantei por suas tradições, costumes e danças. Nesse período, fui convidada a entrar no grupo Bordadeiras Poéticas, de senhoras que bordam por lazer. Até que, em 2013, nasceu o Mãos Caiçaras, porque eu decidi que precisava fazer uma arte que fosse a cara de Paraty. Hoje, eu bordo Paraty.

     

    Você é conhecida por ensinar bordado e incentivar as pessoas a usarem a técnica também como negócio. Isso tem mudado a vida de muita gente em Paraty. Como é isso para você?

    Com o volume maior de encomendas que foi chegando, precisei montar um grupo de apoio à produção do Mãos Caiçaras. Hoje somos parceiras. Eu as treino e depois trabalho com elas. Deve haver hoje pelo menos cinco artistas têxteis e mais de 50 bordadeiras em atividade na cidade. Há um grupo na Praia do Sono que tem um bordado autoral belíssimo. Com todo esse novo momento, o bordado artístico entrou no circuito de exposições em museus e casas de cultura. Mas ainda falta aguçar o tino comercial, para entender que o bordado como arte é importante, mas que também é possível ter peças mais baratas, que sejam bordadas em um tempo curto, com menor custo, para serem vendidas em maior número e viabilizar economicamente a atividade.

     

    Como foi para você desenvolver os bordados exclusivos para a Florita?

    Eu criei os desenhos a partir das ideias de Júlia. Para a gente, também foi uma ótima experiência. Três parceiras ajudaram a confeccionar os oito bordados das peças da coleção JOY-IV. Não sabíamos se a malha aguentaria o peso das linhas - e aguentou muito bem. O cuidado e o carinho delas com cada peça demandam tempo, e isso a Florita valoriza. Cada flor, do tamanho da palmada da mão, foi bordada por oito horas. Só uma folha de uns quatro palmos de altura bordada nas costas de uma camisa levou uma semana para ficar pronta. Maiara, uma das minhas parceiras mais talentosas, bordou aqueles textos lindos.

     

    Como seu trabalho se conecta com a sustentabilidade?

    Além de ter esse fator de trazer um novo trabalho para as bordadeiras de Paraty, também busco valorizar a cultura e a história brasileiras. Procuro trabalhar só com linhas nacionais e tecidos que nos representem.
     

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    Qual é a técnica que você usa?

    Das técnicas têxteis, o bordado é, para mim, o mais perfeito e bonito. Dentro dele, existem centenas de técnicas de pontos, e eu costumo trabalhar com muitos pontos diferentes em uma mesma peça. Mas sempre busco a perfeição até no avesso do bordado. Tem gente que não se preocupa com o verso e dá nó, cruza linhas e não faz um acabamento limpo. Meu bordado é clássico, tradicional, e tem o avesso limpo. Só essa técnica permite espelhar o desenho de um jeito tão perfeito que não se distinguem o avesso e a frente do tecido. O avesso perfeito está em cada peça feita para a Florita.

     

    Esse capricho é quase sempre associado ao feminino, e o mundo do bordado é essencialmente das mulheres, não é?

    O bordado é essencialmente feminino. Mas, de uns tempos para cá, tem surgido alguns bordadeiros - ou bordadores - maravilhosos. Eles estão chegando e fazendo coisas muito bacanas. Tem um deles em Paraty com um trabalho autoral lindo. Mas é triste ver como as próprias mulheres diminuem sua importância nesse meio. Quando chega, o homem já vem com o status de artista; as mulheres entram como quem 'faz uns bordadinhos e só'. Precisamos repensar isso. Muitas ainda reproduzem a ideia de que o bordado escraviza a mulher antiga e a reduzia a alguém que só servia para aquilo. Penso o contrário. Acho que o ato de bordar deve ser encarado como o único momento de libertação dessa mulher. Era quando ela se sentava debaixo da janela para ter um momento só dela.

     

    O bordado tem ganhado novo status e hoje é visto como arte têxtil. Qual é o impacto disso para quem gosta da técnica?

    A transformação do bordado em arte vem mesmo mudando o seu status e incentivando pessoas a se especializarem para viver disso. Estamos no boom do bordado, e não acho que seja uma moda de curta duração. Paraty tem duas gerações de bordadeiras. As mais antigas (Bordadeiras Poéticas), que bordaram quando criança e foram resgatadas a partir de desafios em concursos do Paraty Eco Festival, mas não têm interesse em um vínculo comercial. E tem a geração mais nova, que começa a se interessar por isso. A iniciativa da ONG Colibri despertou esse movimento na cidade. Por meio das aulas, tenho descoberto meninas com muito potencial.

     

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